O BICUDO BOTICA O surpreendente

23/04/2015 13:35

Aloísio Pacini Tostes - Bonfim Paulista – Ribeirão Preto SP (www.lagopas.com.br)

 

Lá pelos idos de 1985, observava, com ênfase, do amigo João Salles de Uberaba MG, seus bicudos nos torneios de fibra da FENAP, ele tinha vários, mas destacavam-se o Jovem, o Araguaia e o Sufoco. Em todos torneios que participavam eram ótimas atuações.

João Salles, dileto amigo, tinha dois apelidos carinhosos, entre os amigos, o primeiro “João Bico Branco” por ter sido na década de 60 dono do extraordinário bicudo chamado “Bico Branco” e depois passou a ser chamado de “João Capa Preta”, porque tinha mania de colocar capas da cor preta em suas gaiolas em participação em torneios. Na época, dono de um boticário, considerado homem poderoso, de muitas posses e muito estimado pelos companheiros.

Era conhecido também por apreciar uma bebida a “Brahma light”. Basta dizer, como exemplo: uma vez lá por 87 num torneio em Cuiabá MT, 1200 kms de Uberaba, chegou numa caminhonete cheia de pássaros arrastando ainda uma carreta repleta de engradados da referida cerveja difícil e ser encontrada por lá. No sábado à tarde nunca se tinha visto tanta garrafa vazia de cerveja pela beira da piscina do hotel, um fato de impressionar qualquer um.

João, marcou época em participação em torneios, ganhou mais de dois mil troféus e era dono de uma maravilhosa escuderia de pássaros, o destaque especial ao seu curió show “Morumbi”, campeoníssimo inúmeras vezes. Já o maravilhoso bicudo Jovem, crioulo de Lazinho - Lázaro Manoel João - de Campo Grande MS, era à época a prova evidente de que pássaro criado em domesticidade poderia ser um campeão contrapondo à mística que vigorava até então de que só indivíduos mateiros eram valentes e cantadores.

Bem, mas a nossa fixação era com o bicudo Sufoco, tínhamos uma grande admiração pelo bicho, mas nem pensar em possui-lo, muito valorizado e João não o disponibilizava de jeito algum. Havia adquirido do Sérgio Gusmão, conhecido como Pelé, o canto macio de um Alta Mogiana da maior qualidade, em contraponto com a maioria dos dialetos de péssima qualidade que estava grassando nos torneios daquele tempo, era um “tchau-tchau” generalizado que com o tempo foi sumindo, ainda bem.

Assim, passados poucos anos, num torneio no Rio de Janeiro - RJ, levamos o bicudo Bizarro campeoníssimo que havíamos pegado de Sérgio Gusmão que era chamado de Zumbi na mão de José Luis de Deus de Cuiabá - MS. Este bicudo também criado pelo Lazinho de Campo Grande - MS, era outro expoente e irmão inteiro do Jovem, seria mais uma prova da qualidade dos bicudos criados domésticos. Por uma grande sorte veio parar na nossa mão através do saudoso amigo Pelé – Sergio Gusmão de Bauru - SP. Neste evento o trocamos por uma Variante II, com Paulo Guadalupe do Rio. Bizarro fez uma curta carreira e brilhante no Rio de Janeiro até infelizmente vir a óbito pela ação de um pepino altamente envenenado com agrotóxico.

No desenrolar daquele torneio no Rio, veio a preocupação: “como levar o veículo para Brasília a 1.200 quilômetros de distância?” Aí então, o Miguel Acetta do Rio, nos fez a proposta: “dou o Pelé nela”. Não deu outra, pegamos o Pelé, uffa, saímos do sufoco!! Este havia ido para o Rio pelas mãos de Eroito. Na mesma hora já colocamos o nome de Belair. Cria do Zé Lopes Cardoso de Campo Grande - MS, tinha se revelado com o amigo Paulo Borges de Brasília. O sentimento, no momento: “levamos um ferro danado”. “Onde já se viu trocar um bicudo campeoníssimo como o Bizarro por  um iniciante como o Belair?”. Mas uma surpresa estava por vir. Preparamos o Belair, acasalamos com uma bela fêmea, o bicho reagiu bem e se adaptou a nossa mexida. Pouco tempo depois houve um torneio em Araguari - MG, não esperávamos mas Belair ganhou o torneio com sobras, deu um show.

Estávamos arrumando as gaiolas no carro para voltar a Brasília quando João Salles chegou perto e disse: “Gostas tanto do Sufoco, te dou ele a troco desse que ganhou o torneio”. Veio a tremedeira, engolimos seco: Aquele seu bicudo Sufoco? Para confirmar, “lógico”. “Tá feito” trocamos os bichos. Alegria total.

“Até que enfim conseguimos o que queríamos, o Sufoco, nossa cobiça, rsss”. Na mesma hora já tomou o nome de Botica, associado ao boticário do João Salles. O bicho cantava bonito, estiloso, lindo demais. Ele já era um bicudo maduro com cerca de 10 anos de idade, pela nossa avaliação. Conseguimos acertar a mexida com uma de nossas excelentes fêmeas e não deu outra começou a figurar nas cabeças (até quinto lugar) em vários torneios que fomos. Fizemos a gravação de seu canto para se juntar ao nosso acervo em face da qualidade de seu canto já difícil de se encontrar, até pela entonação de notas de extrema maviosidade. Naquela época tínhamos vários outros bicudos de ótima qualidade de fibra: O Braseiro, Buzina, Barrica, Bordado e o excelente Bastante e uns outros dois ou três novinhos em casa.

Vai daqui, vai para ali, participávamos dos torneios em várias regiões com essa academia de Bicudos, além de ótimos curiós. Nesse tempo havíamos passado o Batuque e batia um grande arrependimento, mas não tinha jeito de reavê-lo pelo alto valor. Mas sabíamos que a mãe dele a Topetinha estava na mão do Sr. Walter de Campo Grande - MS, mas ele se esquivava e não queria dispor, mesmo sem saber de nada a respeito da origem dela. Num torneio em Rondonópolis - MT, o encontramos e fizemos a pressão: “quanto queres naquela bicuda”. Demorou, fugiu da conversa, foi pra lá veio pra cá, e disse: “só te dou a bicuda se for trocada num desses teus bicudos de roda, lá em Cuiabá te falo”.

Aí foi demais, pensamos “esse homem tá doido, onde já se viu trocar um bicudo desses numa fêmea”. O segredo de ela ser a mãe do Batuque não comentávamos com ninguém, mesmo assim ele tinha pedido aquela exorbitância. Ficamos com esse dilema: “como abrir mão de um bicudo diferenciado, dessa forma?” Por outro lado, tínhamos uns seis bicudos de roda e de ponta, cada um melhor que o outro. A verdade é que a vontade de ter a Topetinha era enorme e nossa discussão interna, era intensa.

Pois bem, daí vinte dias o torneio em Cuiabá - MT, lá estávamos com nossa escuderia. Sr. Walter de manhã disse: “é hoje que vou escolher um, só desse jeito terás a bicuda”. Pensávamos “vamos ver, mas suponho que não vai dar certo”. No torneio levamos: Braseiro, novinho matando a pau; Bastante, também novo, um monstro de bicudo, cada vez melhor; Buzina também novo, cantando demais; Barrica, garotão cantando bonito e muito; Bordado, já meio veião, mas fera; e o Botica meia idade cantando muito também.

Depois de marcada a final, ficamos com os seis bicudos classificados entre os dez primeiros. Aí Sr. Walter virou pra nós e falou: “quero esse e a fêmea dele, apontando para o Botica”. Ele tinha ficado em quarto lugar. Aí, nos enchemos de coragem, estufamos o peito, pensamos: “esse bicudo tá com mais de dez anos, já estaria na decadente e com tanto bicudos bons aqui, já que queremos tanto essa bicuda vamos fazer, ou não?” Pensa de cá pensa de lá, veio a nossa resposta: “tá feito”. O amigo Roberval Tavares o Gambirinha que estava junto: “Sê tá doido, não faça isso, onde já se viu, corre do negócio”. Mas segurarmos, “tá feito”.

Fizemos o rolo, pegamos a Topetinha e abrimos mão do casal Botica, ótimo bicudo, mas o que fazer. Na realidade não faltaria tanto assim, levando em conta a qualidade dos outros, “ah ele estava prestes a ficar decadente”. Pelo menos conseguimos o que queríamos. Arrumar bicudos bons não era tão difícil quanto obter uma bicuda daquela qualidade, pois tínhamos a intenção de produzir bichos da linhagem do Batuque, já havia o Braseiro e Blecaute que havíamos passado para o Antonio Carlos Carone.

Passado algum tempo, já em outra temporada, Silas Lino de Cuiabá - MT, nos liga e diz: “peguei o Botica, agora se chamará Zeus, que tal?” Respondemos: “beleza, um belo bicudo, canta um pouco alto e isso prejudica o volume na final, mas vai dar certo, trabalhe ele direito” . E assim foi, começamos a ter notícia dele, primeiro lugar em vários torneios, até estranhamos por causa do jeito que cantava. Mas era verdade. Nos encontramos num torneio em Goiânia - GO e lá o Zeus, ganhou o torneio. Observei que ele estava mais gordinho e parado nas maritacas de cima e cantando na surdina. Havia mudado o comportamento na roda, muito diferente, cantando na surdina e com excelente volume. Quer dizer: queimamos nossa língua supondo que “ele estava decadente”.

O ocorrido simplesmente confirmou que em geral, os bicudos vão ficando mais velhos e percebem que devem cantar baixo se movimentar menos, isso os leva a aumentar a quantidade de canto. Parece até que ficam mais inteligentes. Conhecemos muitos que assim fizeram e melhoraram suas performances na medida de sua idade ir avançando. E assim foi de torneio em torneio, Zeus ganhando quase sempre nos eventos do Brasil Central e Mato Grosso. Até que participou de um grande torneio no Rio de Janeiro - RJ e ganhou.

Essa proeza fez com que o amigo Pedro Aurélio do Rio o tenha adquirido e assim Zeus passou a se digladiar com o indefectível Sobe e Desce de Nami Jafet, sempre apresentando-se bem. Lógico, não havia jeito de superar o campeoníssimo, mas deu muito calor às disputas. Pena que não durou muito tempo, mas valeram demais as apresentações de Zeus, um maravilhoso bicudo.

Muito bem registrado na memória esta história, que com essa nossa exclusiva versão, tem a intenção de mostrar sua passagem entre nós. Foram muitas surpresas, trocado por uma fêmea, mudando de nome várias vezes, suposto decadente, o nosso Botica deixou o seu legado entre os criadores além de ter um canto lindo, foi também um campeão, um extraordinário bicudo de fibra.

 

Aloísio Pacini Tostes

Bonfim Paulista – Ribeirão Preto SP

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